A economia angolana enfrenta uma severa deterioração das suas perspectivas a médio prazo. Após um crescimento considerado “robusto” de 4,4% em 2024, as projeções para 2025 foram drasticamente revistas em baixa tanto pelo FMI (de 3% para 2,4%) quanto pelo Banco Mundial (de 2,9% para 2,7%).
Esta desaceleração abrupta é causada por fatores exógenos que expõem a vulnerabilidade estrutural do país: a queda dos preços internacionais do petróleo e as condições de financiamento externo cada vez mais restritivas.
Dados Alarmantes:
- Dívida Pública: O serviço da dívida para 2025 representa um valor alarmante de 63% do PIB. Numa mudança geopolítica significativa, a dívida “parqueada” no Reino Unido (majoritariamente Eurobonds) já superou a da China, representando 31% do total da dívida externa contra 29% do credor histórico.
- Inflação: A inflação permanece elevada, impulsionada por pressões cambiais e pela subida dos preços dos alimentos, com o Banco Mundial a prever uma “forte revisão em alta” para 2025.
- Desemprego: A taxa de desemprego, embora com ligeira redução, situou-se em 28,8% no segundo trimestre de 2025, afetando de forma desproporcional a juventude.
A crise manifesta-se na perda acentuada do poder de compra da população, na queda da confiança dos consumidores e na intensificação de tensões sociais. Medidas de austeridade, como a remoção dos subsídios aos combustíveis, têm servido de gatilho para protestos populares, frequentemente recebidos com violência estatal.

A conjuntura atual não é um acidente, mas o resultado inevitável de um modelo rentista e extrativista, estruturalmente dependente das exportações de petróleo. Esta inserção subordinada na economia global gera uma riqueza que é apropriada por uma “classe-Estado”, consolidada no poder, enquanto a vasta maioria da população enfrenta a volatilidade dos mercados e a ausência de um desenvolvimento genuíno.
As políticas de ajuste estrutural, promovidas por instituições como o FMI e o Banco Mundial, não representam uma solução. Pelo contrário, aprofundam a crise ao imporem um “austericídio” que transfere os custos para a classe trabalhadora através da remoção de subsídios e da mercantilização de serviços públicos, intensificando as contradições sociais.

O resultado é um quadro de desigualdade extrema, desemprego crônico e uma vasta precarização do trabalho, com cerca de 80% da força de trabalho no setor informal. A pobreza endêmica, sobretudo nas zonas rurais (onde atinge 58,8%), contrasta com a riqueza gerada pelos recursos naturais, evidenciando o fracasso do modelo.
O DE-MF reitera que a superação desta crise crônica não virá da insistência em reformas ortodoxas que apenas reforçam a dependência. Um projeto de desenvolvimento alternativo e soberano exige uma ruptura fundamental com o modelo atual, uma transformação impulsionada pelas lutas sociais emergentes que contestam a estrutura de poder vigente.
Fontes:
1. BANCO NACIONAL DE ANGOLA (BNA). Relatório da Balança de Pagamentos e Posição de Investimento Internacional. Luanda: BNA, 2º Trimestre de 2025.
2. FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). Angola: 2024 Article IV Consultation—Press Release; Staff Report; and Statement by the Executive Director for Angola. Washington, DC: FMI, jul. 2024. (IMF Country Report No. 2024/229).
3. MORAIS, Rafael Marques de. Combustíveis: O Custo Real do Fim do Subsídio para a População. Maka Angola, Luanda, 15 ago. 2025. Disponível em: https://www.makaangola.org/. Acesso em: 1 set. 2025.
4. OXFAM INTERNATIONAL. Desigualdade S.A.: Como o poder corporativo divide o nosso mundo e a necessidade de uma nova era de ação pública. Oxford: Oxfam International, jan. 2024.
5. ROCHA, Manuel Alves da. O Atraso Económico Angolano. Luanda: Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC); Edições Mulemba, 2017.

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