Por: BRUNO MARTINS VIEIRA*
Conheça a metáfora de Milton Santos que explica por que o passado nunca desaparece na cidade.
Milton Santos (2014) traz, entre diversas contribuições para a geografia, uma metáfora que arquitetos, planejadores e urbanistas passaram a utilizar mais intensamente a partir das décadas de 1970 e 1980: a paisagem como palimpsesto.
Essa leitura assume o espaço geográfico como um mosaico composto por múltiplas idades, feito e refeito constantemente, contendo o passado a partir dos materiais acumulados pelas ações humanas cristalizadas no tempo, e encontrando o presente, com ações e funcionalidades que atribuem sentido a essas formas.
O palimpsesto é um registro escrito — papiro ou pergaminho — cuja escrita original era apagada, seja pela escassez do material, seja para substituição do conteúdo, dando espaço a um novo texto. Contudo, o material não volta a ser “novo”: mantém os traços do que foi escrito anteriormente, como quando se apaga um texto com borracha e permanecem os contornos residuais da primeira grafia.

“O território, sobrecarregado como está de numerosas marcas e leituras passadas, parece-se mais com um palimpsesto. (…) Cada território é único, daí a necessidade de ‘reciclar’, de raspar mais uma vez (mas com o maior cuidado possível, se for possível) o velho texto que os homens inscreveram sobre o insubstituível material dos solos, a fim de depositar um novo que responda às necessidades de hoje antes de ser, por sua vez, revogado” (Corboz, 1983, p. 34).
Os usos que se fazem do território, e as intenções de o reconfigurar, demonstram no contexto urbano a chegada de objetos dotados de novas funcionalidades. Os novos contornos da paisagem expressam a formação social que gerou essa nova forma, tornando a própria paisagem um conjunto de objetos de idades diferentes e conferindo singularidade a cada contexto, resultando em uma constituição ímpar.
‘’O seu caráter de palimpsesto, memória viva de um passado já morto, transforma a paisagem em precioso instrumento de trabalho, (…) permite rever as etapas do passado numa perspectiva de conjunto’’ (Corboz, 1983).
Ainda que os fluxos de capital transformem o espaço geográfico e reconfigurem os lugares, isso não ocorre de modo total. As mudanças acontecem por levas e enclaves nos cantos mais “luminosos”, onde o fluxo global atua com maior intensidade.
Na paisagem, permanecem formas e objetos germinados em formações sociais e modos de produção anteriores, precedentes; não se apaga por completo o subespaço, mas adiciona-se uma nova camada sobre esse “papiro urbano”.

No caso da imagem acima, uma praça — ainda que alterando a fachada dos imóveis e outras nuances mediante a modificação da estrutura original — apresenta o traço da escrita da paisagem, onde se refez a funcionalidade do objeto em questão.
“Na verdade, paisagem e espaço são sempre uma espécie de palimpsesto onde, mediante acumulações e substituições, a ação das diferentes gerações se superpõe. O espaço constitui a matriz sobre a qual as novas ações substituem as ações passadas. É ele, portanto, presente, porque passado e futuro” (Santos, 2014).
Quanto ao passado, Milton ainda traz uma interessante noção que ajuda a apreender os objetos dispostos na paisagem: a rugosidade.
‘’O que na paisagem atual, representa um tempo do passado, nem sempre é visível como tempo, nem sempre é redutível aos sentidos, mas apenas ao conhecimento. Chamemos rugosidade ao que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem, o que resta do processo de supressão, acumulação, superposição, com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares. As rugosidades se apresentam como formas isoladas ou como arranjos.’’
As rugosidades emergem na paisagem e refletem combinações de trabalhos descontinuados naquele contexto específico, como uma velha chaminé em um município já sem atividade fabril. Por vezes, esses objetos são reapropriados, ganhando novas vidas que os animam — não mais pelo significado original de sua inauguração, mas constituindo sentido para o novo momento que os preenche de vida.

Foto: Juliano Pfutzenreuter Nunes/Divulgação/ND
A imagem acima apresenta o Armazém Rita Maria em Florianópolis: uma edificação tombada, onde funcionaram fábricas de pregos no final do século XIX, que deu início ao processo de industrialização na cidade, tornou-se ponto gastronômico, modificando a funcionalidade e os usos originalmente atribuídos àquela forma e objeto geográfico.
Com efeito, esses objetos geográficos revelam momentos da história que se cristalizaram na paisagem, elaborados por relações de trabalho já inexistentes, mas que auxiliam na compreensão histórica e dialética que a ciência geográfica inspira a refletir profundamente.
Referências
CORBOZ, André. El territorio como palimpsesto. Lo urbano en 20 autores contemporáneos, p. 25-34, 2004.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2014
*Bruno Martins Vieira é Coordenador do Departamento de Geografia e Geopolítica “Milton Santos” e Professor de Geografia do Centro de Estudos Interdisciplinares Soyuz.

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