O Dialeto Russo-Ucraniano “Balátchka”: Gênese, Estrutura e Patrimônio Linguístico de Fronteira

Balátchka

Artigo de Matheus Gusev, professor da Brigada Russa, estudante de Linguística: Russo na Universidade Estatal de São Petersburgo (SPbGU) e diretor do Instituto Soyuz:

A Rússia, em uma extensão territorial que abarca mais de 17 milhões de quilômetros quadrados e uma complexa tessitura histórica e etnodemográfica, constitui um dos mais ricos mosaicos linguísticos do globo terrestre. Para além do russo padrão, língua oficial do Estado e veículo de comunicação que mais bem conhecemos, subsiste uma miríade de dialetos, falares (рус.: говоры) e línguas minoritárias que testemunham séculos de migrações, contatos culturais, estruturação política e processos de formação identitária que dificilmente conseguiríamos colocar em um único artigo.

Estima-se que, distribuídos entre as populações eslavas, em especial a russa, existam centenas de variedades dialetais, tradicionalmente agrupadas pela dialectologia em três grandes troncos: o nortenho (рус.: северорусское, pron.: severorusskoe), o meridional (рус.: южнорусское, pron.: yuzhnorusskoe) e o central (srednerusskoe), sendo estes dois últimos os mais próximos da norma literária moscovita. Tal diversidade intraeslava, no entanto, é apenas uma camada do panorama linguístico nacional, que integra ainda dezenas de línguas de famílias distintas (fino-úgrica, turcomana, mongólica e caucasiana, por exemplo), onde muitas delas apresentam seus próprios sistemas dialetais internos. Sabendo do cenário de extraordinária pluralidade, o dialeto balátchka (ou balakátchka) que veremos hoje, emerge como um caso paradigmático e singular: um idioma de contato, nascido na fronteira geográfica e cultural entre o mundo eslavo oriental e o Cáucaso, que encarna de forma particularmente vívida os processos históricos de miscigenação linguística e a raiz da identidade cossaca.

Cossacos de Kuban durante a Parada da Vitória contra o nazifascismo (24 de junho de 1945)

Imagine um lugar onde a fala comum de um povo se torna a própria essência de sua história, tecendo-se a partir do encontro entre mundos linguísticos distintos: o russo-ucraniano e o túrquico. É neste contexto em que o dialeto dos cossacos, o balátchka (укр.: балачка), ou balakátchka (рус.: балакачка), surgirá, constituindo-se como um fenômeno de notável complexidade sociolinguística e histórica, representando a cristalização idiomática da identidade cossaca do Kuban e do Don. Trata-se de um continuum linguístico híbrido, cuja base estrutural assenta-se na fusão profunda e secular entre variedades dialetais do sudeste ucraniano e falares russos meridionais, com estratificações posteriores de influências caucasianas e túrquicas. A própria etimologia do termo, derivada do verbo ucraniano “балакати” (balakáti), sendo este um pouco distinto da versão russa “болтать” (boltát’), que significa “conversar”, “palrar” ou “tagarelar”, aponta para sua natureza essencialmente oral e coloquial, enraizada numa comunicação cotidiana de comunidades específicas. A sua formação está intrinsicamente ligada aos deslocamentos populacionais de grande escala que moldaram o sul do Império Russo no final do século XVIII, particularmente após a anexação da Crimeia e a pacificação do Cáucaso Norte, sob regência de Catarina II, a Grande.

A gênese histórica do balátchka remonta ao ano de 1792, quando, por meio de um decreto da Imperatriz Catarina II, foram concedidas terras na península de Taman’ e na margem direita do rio Kuban aos cossacos do Mar Negro, oriundos da antiga Sich de Zaporozhye, desmobilizada em 1775. Este grupo, de língua materna ucraniana e portador de falares do sudeste da Ucrânia (especialmente das antigas gubernias de Poltava, Chernigov e Kharkov), constituiu o núcleo inicial do que viria a ser o Exército Cossaco do Kuban. O estabelecimento destas comunidades nas fronteiras partilhadas com povos autóctones do Cáucaso e, posteriormente, intensamente colonizadas por camponeses russos e ucranianos oriundos de diversas províncias, criou um caldeirão linguístico próprio e extremamente característico. Como observou o historiador e etnógrafo Fedor Andreyevich Shcherbina (1849-1936) no livro “História dos Cossacos de Kuban”, Tomo II, no final do século XIX já se havia formado na região “algo intermediário entre os grandes russos e pequenos russos — a língua, o ambiente doméstico, alguns costumes, etc., apresentavam precisamente um carácter dual”. Este processo não foi uma mera justaposição de códigos, mas uma simbiose de um povo de mesma origem que gerou, nas palavras de um observador da época, “um falar especial que se podia chamar de “kubano”, no qual já era difícil discernir se o interlocutor era “um pequeno russo” (ucraniano) ou um “grande russo” (russo como conhecemos).

Do ponto de vista da classificação linguística, o balátchka não se apresenta como um sistema monolítico, tendo três versões principais que refletem diferentes contextos históricos e geográficos de formação: Kubanskaya, Donskaya e Górskaya (do russo: “montanhês”). O balátchka kubanskaya é geralmente considerado a variedade mais significativa e a que preserva de forma mais marcante o substrato linguístico russo-ucraniano. Ela representa a evolução própria, em relativo isolamento, das práticas faladas dos dialetos ucranianos do século XVIII, sofrendo, contudo, um destino profundamente marcado pelo período soviético (1922-1991), que representou um capítulo decisivo e paradoxal na história do dialeto. Inicialmente, a política de korenizatsiya (рус.: коренизация, indigenização) na década de 1920 deu margem a uma tentativa de “ucranização” do Kuban (1925-1932), baseada na visão oficial de que o balátchka se moldava como um mero dialeto do ucraniano. A campanha, no entanto, encontrou resistência da população local, que via seu falar como uma expressão autóctone e também de proximidade com o russo. A partir dos anos 1930, com a virada stalinista para o centralismo e a promoção da autodeterminação dos povos, a política linguística se reverteu radicalmente, permitindo um processo natural de desenvolvimento do idioma, porém agora, tendo um aporte da sistematização russa. A versão kubanskaya, em particular, viu seu uso progressivamente marginalizado ao espaço público e escolar, sendo relegada ao domínio privado e familiar. Já o balátchka donskaya, por sua vez, caracterizou-se como um dialeto de transição entre as formas ucranianas orientais e os falares russos meridionais, sendo por vezes contraposta ao “gútor” (рус.: гутор), dialeto dos cossacos do Don. Mirando ao balátchka górskaya, versão formada durante as Guerras do Cáucaso, passou a ostentar uma profunda influência de línguas como o adigué e o osseta. Apesar da intensa pressão assimilacionista soviética, que visava à construção do homo sovieticus, o balátchka como um todo demonstrou notável resiliência com o tempo. Ele sobreviveu como língua da intimidade e do humor entre os cossacos e moradores locais, preservando um rico acervo lexical e fraseológico que continuou a evoluir de forma natural.

A análise das características linguísticas do balátchka ainda revela uma mescla orgânica nos níveis fonético, morfológico e lexical invejável em alguns aspectos da dialectologia. Foneticamente, a marca mais distintiva é o denominado “ghekanye”, ou seja, a realização da consoante “г” como uma oclusiva velar sonora [g], em contraste com a fricativa [ɣ] ou a sonora [ɦ] dos falares russos centrais. Outros traços incluem a prótese de “v” em início de palavra (ex.: выно [vynó] para “vinho”, em russo вино [vinó]), a síncope de vogais, a substituição do fonema /f/ por /kh/ ou /khv/ (ex.: хвист [khvist] para “cauda”, em russo хвост [khvost]), e a palatalização distintiva de consoantes. No plano lexical, o vocabulário é um testemunho vivo da hibridização, combinando raízes russas e ucranianas, por vezes com significados específicos da cultura local. Palavras como цап [tsap] (cabra, do ucraniano), гарный [gárnyy] (bonito, do polaco via ucraniano), капелюх [kapeliúkh] (chapéu, do ucraniano) e тэпэр [tépér] (agora, do ucraniano tepér) convivem com construções gramaticais que frequentemente seguem padrões ucranianos, como o uso do verbo балакати [balakáti] (falar) ou da interrogação звідкіля [zvidkýlya] (de onde).

Indo para a transcrição de seus termos, como já foi visto, evidencia uma fonética interessante, marcada por uma palatalização e pela presença de vogais específicas numa mescla de pronúncias russo-ucranianas, como nos exemplos брыгада (brigada), брэгадир (brigadeiro), нэбо (céu) e ныщий (mais baixo). Esta arquitetura sonora única é complementada por um léxico repleto de arcaísmos, onde muitos termos possuem radicais russos diretos, mas que não encontram equivalentes no russo contemporâneo ou preservam significados mais antigos, congelados no tempo pelo isolamento relativo da comunidade. Percebe-se que, ao compararmos com o russo, onde há “е”, teremos “э”; onde há “и”, teremos “ы”, indo na tendência oposta de suavização de vogais historicamente encontrada no russp. Palavras como брухаться (bater com os chifres), булить (sofrer, preocupar-se) e нышпиркы (esconderijos, lugares secretos) funcionam como fósseis linguísticos, dignos de uma aventura de qualquer linguista.

Além disso, o dialeto atua como um inventário preciso de seu universo, documentando desde objetos concretos, como a булава (masse, símbolo de autoridade do ataman, o líder cossaco) e o бунчук (cauda de cavalo montada, símbolo militar, até aspectos mais subjetivos da experiência humana. Há uma profusão de termos para ações, estados e qualidades sensoriais, como булькать (gorgolejar), брэнчать (dedilhar desordenadamente ou falar bobagem) e нэвгомóнный (inquieto, incansável), que demonstram uma específica e fina percepção do mundo. A sabedoria popular e o humor encontram sua máxima nos provérbios e ditos que acompanham as entradas lexicais. Máximas como “Мэ́ншэ брэха́ть – спокойни́шэ спать”, que em russo seria “Меньше брехать – спокойнейшее спать” (Menos mentiras – mais tranquilo o sono) e “Бог в нэбэсáх, а душá в телесáх” (Deus está nos céus, e a alma no corpo) demonstram uma comunicação muito parecida com o que russos e ucranianos nomeiam como “славянский менталитет” (mentalidade eslava), encapsulando uma visão de mundo pragmática, filosófica, calma e, o mais interessante: profundamente enraizada na experiência coletiva.

No que concerne à situação sociolinguística contemporânea, o balátchka não possui qualquer estatuto oficial na Federação da Rússia, sendo classificado pelas autoridades linguísticas como um dialeto do russo, apesar da sua gênese bicéfala. O seu uso está largamente confinado à esfera doméstica e é predominante entre as gerações mais idosas nas stanitsas (рус.: станицы, aldeias cossacas). Estimativas baseadas em estudos dialectológicos e em dados sociológicos da Universidade Estatal de São Petersburgo e da Universidade Estatal de Moscou indicam que o número de falantes com domínio ativo ou passivo deste dialeto ronda atualmente os 400 mil indivíduos. Contudo, desde a década de 1990, assiste-se a um movimento de revitalização cultural associado ao renascimento da identidade e das instituições cossacas. Este movimento inclui esforços para a documentação, estudo e promoção do dialeto, como a publicação de dicionários específicos (por exemplo, a obra de P.I. Tkachenko, “Кубанский говор: балакачка”), a introdução de módulos sobre o balátchka na disciplina escolar obrigatória “Кубановедение” (Estudos do Kuban), e a realização de eventos festivos como o “День балачки” (Dia do Balátchka), no dia 12 de setembro.

O que tiramos como conclusão? O balátchka se mostra muito mais profundo do que o conhecido “surzhyk” (рус.: суржик, mistura ativa entre o russo e o ucraniano) ou um pidgin efêmero. Ele se configura como um património linguístico e étnico, além de um repositório vivo da memória histórica de uma comunidade fronteiriça. Ele encarna a síntese linguística resultante de séculos de convivência, migração e adaptação cultural entre eslavos orientais em um contexto geopolítico particularmente dinâmico. Esse dialeto é vivo e permanece como um alicerce na construção identitária dos cossacos do Kuban, mantendo acesa a chama de um falar que é, no sentido mais profundo, a voz da sua história partilhada.

Покеличи! Бывайтя с Богом!

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