As fortes chuvas não são naturais!

Por: LUISA HARDUIM*

Diante do agravamento das mudanças climáticas antropogênicas, alertas de desastres tornam-se insuficientes sem uma práxis política coletiva que integre adaptação infraestrutural e saberes territoriais.


Chuvas mais fortes são cada vez mais frequentes e elas são consequências das mudanças climáticas atuais. É necessário mais uma vez afirmar que as tragédias que acontecem em Minas Gerais, que já aconteceram no Rio Grande do Sul e que continuam acontecendo nos diversos estados brasileiros não são por causas naturais! Tampouco é alguma divindade castigando os seres humanos.

Por mais que a chuva seja um fenômeno da natureza, a intensidade e frequência que ela acontece é por conta das mudanças climáticas antropogênicas. “Antropo” pode ser traduzido como ser humano e “gênicas” no sentido da sua origem, logo a origem das mudanças climáticas atualmente é por conta dos seres humanos. Se por um lado, pode parecer estranho que o ser humano tenha a capacidade de realizar tal feito, por outro lado, nós também temos uma grande confiança na capacidade humana de transformar o mundo. O que talvez ainda não esteja claro é que essa ação humana que faz chover forte nos estados é coletiva, assim como a resposta a estes problemas também precisa ser.

O Cenário Global e a Necessidade de Adaptação

O ano de 2025 foi o terceiro ano mais quente da história e, em 2024, atingimos a temperatura global acima de 1,5º graus, desde os níveis de temperatura pré-industriais. Seguimos um padrão de aceleração do aumento da temperatura global, embora as políticas de mitigação tenham avançado no mundo nos últimos anos.

Gráfico 1: Aumento da temperatura global do ar à superfície (°C) acima da média para o período de referência pré-industrial designado, de 1850 a 1900, com base no conjunto de dados ERA5, apresentado como médias anuais desde 1940. Crédito: C3S/CEPMPM e Meteored Brasil.

Emitir cada vez menos gases de efeito estufa é um desafio que os setores econômico-políticos específicos devem ser responsabilizados segundo a sua maior ou menor contribuição de emissões, no entanto, são também igualmente necessárias as políticas de adaptação e resiliência.

Uma parte importante das políticas de adaptação é a redução de risco de desastres, que é muitas vezes resumida aos projetos de alerta dos eventos climáticos extremos, mas sem ao menos a construção de estruturas de apoio, a capacitação dos profissionais preparados e a redução dos riscos e vulnerabilidades, pois sem contar a necessária adaptação infraestrutural às novas condições climáticas.

Os projetos de alerta dos eventos climáticos extremos não são suficientes. As mudanças climáticas precisam ser uma questão transversal em todas as esferas da política. Não podemos esperar que mais tragédias aconteçam para que medidas sejam tomadas.

As Influências dos Alertas Individuais

Quantas vezes você já recebeu no seu celular um alerta de chuvas, tempestades, ventos fortes, etc? O que você pensou logo depois de ler o alerta? Muito provavelmente você apenas ponderou ficar em casa ou voltar para casa o mais rápido possível. Talvez você possa ter ficado na dúvida se realmente será tão intenso, já que você pode ter recebido outro alerta de evento climático que não se concretizou como extremo para sua região.

Foto: Exame.

O alerta por si só não é eficaz, se não houver maior compreensão sobre o problema e sobre como agir em cada momento e local. Cada região de uma cidade ou estado tem características específicas que proporcionam maior ou menor exposição aos riscos dos eventos climáticos extremos.

Ao contrário do que fazem as mídias tradicionais em explorar só essas características para tentar justificar a gravidade do problema, essas características na verdade precisam ser parte das respostas necessárias ao problema. Os conhecimentos populares dos territórios são indispensáveis para efetivação das políticas climáticas, assim como o incentivo às instituições na articulação intersetorial das políticas.

Não é mais possível apenas culpabilizar políticos pelas tragédias, é também necessário cobrar que as políticas climáticas sejam melhor formuladas e efetivamente implementadas. Para tanto, precisamos aprofundar ainda mais o debate público sobre as mudanças climáticas, assim como as estratégias de enfrentamento. A ação coletiva é fundamental para tanto a compreensão quanto a concretização das políticas climáticas.

Nesse sentido, teorias “individualizantes” (muitas vezes liberais), que isolam os objetos do seu contexto ou que focam somente nos indivíduos, são incapazes de dar conta da complexidade das dimensões científica e política que as mudanças climáticas antropogênicas exigem. Um dos maiores ensinamentos da ecologia política é que: tudo está conectado. Viver no planeta Terra é fazer parte de uma rede de conexões com outros seres humanos, mas também com tudo o que é vivo e não humano. Por compartilharmos o mesmo planeta, estamos sujeitos às interações possíveis e necessárias às condições de vida na Terra.

Ecologia Política e Sabedoria Ancestral

Tempestades, fortes chuvas, ciclones e furacões são antigos conhecidos da espécie humana, pois são tão temidos quanto enfrentados. A palavra furacão, por exemplo, vem da da palavra “hurakán” da língua indígena caribenha dos Taínos. Não só através da palavra que os Taínos enfrentavam os problemas climáticos, mas também através da práxis sobre seu território com a construção de rotas de fuga, abrigos e estruturas adaptadas, além do conhecimento de previsão dos furacões com a observação do comportamento animal, da mudança dos ventos e nuvens e das condições climáticas oceânicas. Embora diversas teorias ecológicas tenham brotado nas últimas décadas, a prática necessária para o florescimento delas ainda está em marcha lenta. A práxis ecológica só se efetiva quando a teoria se retroalimenta pela prática, pois quando a ciência é política e a política se baseia na ciência.

Foto: Jorge Baracutei Estevez, líder de um grupo comunitário de taínos. Feita por Haruka Sakaguchi e e reproduzida pela National Geographic.

Não podemos lembrar que as mudanças climáticas existem somente quando as tragédias acontecem, tampouco podemos normalizar a frequência desses eventos climáticos extremos e a fatalidade das perdas sociais. Quando cientistas climáticos falam sobre colapso ecológico, eles não estão descrevendo um filme, onde tudo acontece em poucas horas – nem o fim do mundo e nem o fim do capitalismo acontecem do dia para a noite. Quando cientistas climáticos falam sobre colapso, eles estão demonstrando a gravidade que é viver em um planeta com temperaturas tão altas, pois o risco que corremos em maior ou menor exposição, segundo os processos de vulnerabilidades que são encarados.

Algumas transformações são irreversíveis e algumas mudanças podem ser revolucionárias. Ao imaginar o fim do capitalismo, é possível orientar a prática política através da ação coletiva ecológica, assim como honrar a sabedoria ancestral de cuidado dos territórios.


Referências

https://climate.copernicus.eu/copernicus-2025-was-third-hottest-year-record

Duin, R. S. The Wrath of Zemi: Arawak Hurricane Prediction in the Caribbean. Journal of Skyscape Archaeology, v. 4, n. 1, p. 82-104, 2018.

Ferreira, L.; Martins, R. Oportunidades e barreiras para políticas locais e subnacionais de enfrentamento das mudanças climáticas em áreas urbanas: evidências de diferentes contextos. Ambiente & Sociedade, v. 13, n. 2, p. 223–242, dez. 2010.


* Luisa Harduim é Professora do Departamento de Ciênciais Sociais “Vladimir Ilyich Ulianov” do Centro de Estudos Interdisciplinares Soyuz. Doutoranda e Mestre em Sociologia pelo IESP/UERJ, é pesquisadora do Observatório Interdisciplinar de Mudanças Climáticas (OIMC) e do Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina (NETSAL). Com vasta experiência em educação popular e formal, organizou publicações relevantes como o Atlas da Justiça Climática na América Latina e no Caribe (2025) e o livro Antropoceno, mudanças climáticas e ciências sociais no Brasil (2025). Suas áreas de interesse incluem sociologia ambiental, ecomarxismos e mudanças climáticas antropogênicas.

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