Texto de Matheus Gusev, coordenador das Brigadas Russa e Lituana
Quando tratamos d’A Grande Guerra Patriótica (1941-1945), constantemente nos esquecemos das aterradoras e heroicas batalhas de libertação dos países bálticos. Figuras importantíssimas surgiram justamente nesse período, fazendo uma frente direta ao nazifascismo que, de maneira imparável, sobrepujava as comunidades judaicas na região e aniquilava toda e qualquer probabilidade de estabelecimento de um governo popular, um governo soviético. Sara Iôssifovna Ginaite-Rubinson (1924–2018) ocupa um lugar de destaque na história da resistência antifascista durante a ocupação dos territórios bálticos pelas tropas hitleristas. Judia lituana, economista, historiadora e pesquisadora do Holocausto, sua trajetória representa a união entre a luta armada contra o nazismo e o compromisso permanente com a preservação da memória histórica. Sua vida foi uma verdadeira batalha pela memória histórica em defesa do decisivo papel desempenhado pelos partisanos soviéticos e pelo Exército Vermelho na derrota do fascismo e na libertação dos povos da Europa Oriental.
Sara nasceu em 17 de março de 1924, na cidade de Kaunas, então pertencente à República da Lituânia, em uma família judaica relativamente próspera. Seu pai, Iôssif Gin, judeu ashkenazi, havia estudado na França e dedicava-se ao empreendedorismo. Sua mãe chamava-se Rebeca, e sua irmã mais velha, Alice, estudava na Bélgica. Durante sua juventude, Sara recebeu sólida educação no ginásio de Kaunas (Kovno, em russo), alinhando-se às tradições judaicas de sua família e desenvolvendo interesse pela literatura e pelo teatro.
A invasão da União Soviética pela Alemanha nazista em junho de 1941 alterou radicalmente sua vida. Com a ocupação da Lituânia, teve início uma das mais brutais campanhas de extermínio contra a população judaica da Europa. Em agosto daquele ano, os judeus de Kaunas foram confinados ao Gueto de Vilijampolė, onde milhares seriam posteriormente assassinados. Diante da política sistemática de extermínio conduzida pelos ocupantes alemães, com a colaboração ativa de grupos nacionalistas locais, Sara tomou a decisão de abandonar o gueto e juntar-se à resistência armada.
Ela ingressou no destacamento partisano soviético conhecido como “Morte aos Ocupantes” (Smyert okkupantam, em russo), uma das formações guerrilheiras que operavam em coordenação com o movimento comunista. Todos esses destacamentos populares desempenharam papel estratégico na sabotagem das linhas de comunicação alemãs, na obtenção de informações militares, na destruição de instalações ocupadas pelo inimigo e no apoio às operações conduzidas pelo Exército Vermelho. Para milhares de judeus perseguidos naquela região, integrar-se aos partisanos, significava não apenas lutar pela libertação de sua pátria, mas também pela própria sobrevivência diante da política genocida nazista.
Foi nesse destacamento que Sara conheceu Mikhail Rubinsonas, também combatente da resistência, que posteriormente se tornou seu marido. Em 1943, após conseguirem deixar o gueto, os partisanos estabeleceram-se na Floresta de Rudniki, importante centro da resistência soviética na região. Dali continuaram a combater as tropas de ocupação alemãs até a ofensiva geral do Exército Vermelho.
Já no verão de 1944, durante a grande ofensiva soviética que libertou a Bielorrússia e avançou sobre os territórios ocupados da Lituânia, Sara participou diretamente da libertação de Vilnius ao lado das unidades do Exército Vermelho. A operação representou um importante marco militar na expulsão definitiva das forças nazistas da região. Em 11 de agosto de 1944, um major do Exército Vermelho registrou uma fotografia de Sara uniformizada após a libertação da cidade. A imagem tornou-se internacionalmente conhecida e passou a simbolizar a participação das mulheres e dos combatentes judeus na vitória soviética sobre o fascismo.
A guerra, entretanto, cobrou um preço profundamente doloroso. Grande parte de sua família foi exterminada durante o Holocausto. Três de seus tios foram assassinados por um antigo empregado da família que colaborou com a polícia auxiliar ligada aos ocupantes alemães. Sua avó faleceu em decorrência do choque provocado pela tragédia. Sua mãe, Rebeca, sua irmã Alice e o marido desta morreram no campo de concentração de Stutthof. A família de Mikhail Rubinsonas também foi completamente exterminada no Gueto de Kaunas. Essas perdas, de maneira irreparável, marcaram profundamente Sara e reforçaram seu compromisso em preservar a memória das vítimas e denunciar os crimes do nazismo.
Terminada a guerra, iniciou uma nova etapa de sua vida dedicada ao ensino e à pesquisa. Em 1949 concluiu o curso de Economia na Universidade Estatal de Vilnius, enquanto seu marido trabalhava como jornalista. Durante os anos da campanha soviética conhecida como “luta contra o cosmopolitismo”, Sara enfrentou dificuldades profissionais e chegou a ser demitida de seu cargo de laboratorista. Apesar desse episódio, conseguiu retornar à vida acadêmica graças ao apoio de colegas, passando a lecionar Economia Política na Conservatória Estatal da República Socialista Soviética da Lituânia. Em 1968 defendeu sua tese de candidata em Ciências Econômicas e, apenas quatro anos depois, obteve o grau de doutora em Ciências Econômicas, tornando-se professora universitária. Durante décadas lecionou na Universidade Estatal de Vilnius, dedicando-se à economia política, aos problemas da produção e do consumo e à formação de novos pesquisadores. Orientou onze pós-graduandos que concluíram com sucesso suas dissertações, contribuindo para o fortalecimento da ciência econômica soviética na Lituânia.
Em 1983, com autorização das autoridades soviéticas, Sara e sua família emigraram para o Canadá. Ali passou a lecionar nas universidades de York e Toronto. Mesmo vivendo no exterior, manteve fortes vínculos acadêmicos com a Lituânia, sendo uma das responsáveis pela criação de programas de intercâmbio entre as universidades de Toronto e Vilnius. Sua atuação demonstra que muitos intelectuais formados na União Soviética continuaram contribuindo internacionalmente para a ciência e para a educação.
A partir do final da década de 1980, Sara concentrou seus estudos na história dos judeus lituanos, no Holocausto e na resistência antifascista. Produziu importantes trabalhos dedicados à preservação da memória dos combatentes partisans e das vítimas do genocídio nazista. Entre suas principais obras destacam-se o artigo “O início da tragédia do povo judeu na Lituânia”, publicado em 1994; o “Livro da Memória”, lançado em Vilnius em 1999; e “Resistência e Sobrevivência: a comunidade judaica de Kaunas entre 1941 e 1944”, publicada em Toronto em 2005 e reconhecida como um dos melhores livros do ano no Canadá.
Em praticamente todos os seus estudos, Sara enfatizou repetidamente que a resistência judaica armada constituiu parte integrante do movimento partisano soviético. Para ela, a libertação dos sobreviventes do Holocausto na Europa Oriental foi inseparável da vitória militar alcançada pela União Soviética sobre a Alemanha nazista. Essa interpretação confronta tentativas contemporâneas de equiparar o papel da União Soviética ao do regime hitlerista ou de minimizar a contribuição decisiva do Exército Vermelho para a derrota do fascismo.
Sua postura tornou-se particularmente evidente em 2008, quando saiu em defesa de antigos partisanos soviéticos judeus investigados pelas autoridades lituanas em razão dos acontecimentos ocorridos na aldeia de Kaniūkai. Sara criticou duramente as iniciativas que, segundo sua avaliação, procuravam criminalizar combatentes que haviam lutado contra o nazismo, considerando tais processos parte de um esforço revisionista burguês destinado a desacreditar a resistência soviética e a relativizar a colaboração de setores nacionalistas locais com a ocupação alemã. Hoje, como vemos, a Lituânia cospe e ataca essa memória, tendo um governo completamente complacente e auxiliar do fascismo.
Em 2012 publicou o álbum “Pro Memoria”, reunindo fotografias de seus familiares desde 1912. A obra possui profundo significado histórico e emocional, resgatando a memória de uma comunidade praticamente destruída pelo Holocausto e preservando os rostos e as histórias daqueles que o genocídio nazista tentou apagar.
Sara Ginaite-Rubinson dominava cinco idiomas, sendo eles: lituano, russo, inglês, alemão e iídiche. Permaneceu intelectualmente ativa até os últimos anos de vida. Faleceu em Toronto, em 2 de abril de 2018, aos 94 anos.
Viva Sara Ginaite!
Viva os Partisanos Soviéticos!
Viva o Movimento Comunista Lituano!
Fontes:
HOLÓCAUSTO FOUNDATION OF RUSSIA. Не стало Сары Гинайте-Рубинсон. Disponível em: https://holocf.ru/не-стало-сары-гинайте-рубинсон/. Acesso em: 5 jul. 2026.
THE FEMALE SOLDIER. Sara Ginaite. Disponível em: https://thefemalesoldier.com/blog/sara-ginaite. Acesso em: 5 jul. 2026.
GINAITE, S. I. Реальные доходы рабочих и служащих (По материалам Литов. ССР): автореферат диссертации на соискание ученой степени доктора экономических наук. Вильнюс, 1968. Disponível em: https://rusneb.ru/catalog/000199_000009_010227367/. Acesso em: 5 jul. 2026.
BRACHKA (LiveJournal). Post sobre Sara Ginaite-Rubinson. Disponível em: https://brachka.livejournal.com/29557.html. Acesso em: 5 jul. 2026.

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